#Saúde | O avanço das apostas esportivas e dos jogos online, as chamadas bets, também passou a preocupar profissionais de saúde mental. Neste Setembro Amarelo, especialistas chamam a atenção para os impactos que o comportamento de apostar de forma compulsiva pode provocar na vida das pessoas e defendem que o assunto seja discutido de maneira aberta durante o tratamento.
O alerta ganha importância especialmente entre pessoas que desenvolvem o chamado transtorno do jogo, condição caracterizada pela perda de controle sobre as apostas, mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares e pessoais.
Segundo profissionais ouvidos pela Agência Brasil, alguns sinais devem chamar a atenção de familiares e amigos, como desesperança, sensação de não encontrar saída, isolamento, mudanças significativas de comportamento e aumento do consumo de álcool.
Declarações relacionadas à morte ou à falta de vontade de continuar vivendo também exigem atenção imediata e busca por ajuda profissional.
Apostas podem alimentar um ciclo de perdas
A psiquiatra Kátia Branco, que atua no Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, defende que pensamentos suicidas sejam abordados de maneira direta durante consultas e grupos terapêuticos.
Segundo ela, pessoas que procuram tratamento por problemas relacionados ao jogo frequentemente chegam aos serviços de saúde já apresentando ansiedade e humor deprimido, muitas vezes associados aos prejuízos provocados pelas apostas.
O problema pode se agravar quando o jogador tenta recuperar o dinheiro perdido aumentando o valor das apostas. A estratégia, porém, pode levar a novas perdas e aprofundar o endividamento.
O cérebro e a sensação de recompensa
O neurocirurgião Orlando Maia, do Rio de Janeiro, explica que as apostas também envolvem mecanismos relacionados ao sistema de recompensa do cérebro.
A expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa. Quando esse mecanismo é repetidamente acionado, pode contribuir para que o comportamento de apostar se torne cada vez mais frequente.
O risco aumenta quando a pessoa perde a capacidade de controlar o próprio comportamento e passa a priorizar o jogo em detrimento de outras áreas da vida.
Bets estão disponíveis 24 horas
Uma das características que diferenciam as apostas online dos jogos tradicionais é a facilidade de acesso. Pelo celular, o usuário pode apostar praticamente a qualquer hora e de qualquer lugar.
A exposição constante em redes sociais, publicidade e transmissões esportivas também pode contribuir para a normalização das apostas.
A psiquiatra Giovanna Quinet, do Rio de Janeiro, ressalta que apostar eventualmente não significa, por si só, que uma pessoa desenvolverá depressão ou pensamentos suicidas.
O alerta está principalmente na mudança de comportamento: quando uma atividade ocasional passa a ocupar espaço central na rotina, acompanhada de perda de controle e consequências negativas.
O ciclo pode começar com apostas por diversão ou pela expectativa de ganhar dinheiro. Depois, diante das perdas, a pessoa aumenta os valores apostados para tentar recuperar o prejuízo, esconde a situação da família e acumula dívidas.
Com o passar do tempo, podem surgir conflitos familiares, problemas profissionais, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento.
Esse conjunto de fatores pode provocar um quadro de desesperança e contribuir para o agravamento do sofrimento psicológico.
Família pode ser fundamental para perceber o problema
Outro desafio é que nem sempre a própria pessoa reconhece que desenvolveu uma relação problemática com as apostas.
Por isso, familiares e amigos podem desempenhar papel importante na identificação dos sinais e na busca por atendimento.
A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), no Distrito Federal, afirma que pessoas em intenso sofrimento podem chegar aos serviços depois de pensamentos ou tentativas de suicídio.
Para a especialista, é necessário acolher a pessoa e envolver a família na construção de estratégias de cuidado.
Ela também destaca que o problema não deve ser tratado apenas como uma questão individual. A prevenção e o tratamento exigem participação de diferentes áreas e da própria sociedade.
Perguntar sobre pensamentos suicidas não aumenta o risco
Os especialistas reforçam que conversar diretamente sobre pensamentos relacionados à morte não significa induzir uma pessoa ao suicídio.
Pelo contrário, a abordagem pode abrir espaço para que alguém revele um sofrimento que vinha sendo mantido em silêncio.
O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico, psiquiátrico e, quando indicado, uso de medicamentos. A estratégia deve ser definida de acordo com a situação de cada paciente.
O principal alerta dos profissionais é para que familiares e amigos não esperem que o problema chegue ao limite para procurar ajuda.
Onde buscar ajuda
Em situações de risco imediato de suicídio, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de emergência.
- SAMU: 192
- CVV (Centro de Valorização da Vida): 188 — atendimento gratuito, 24 horas por dia.
- Também é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), serviço de saúde mental ou CAPS para orientação e acompanhamento.
O debate durante o Setembro Amarelo reforça que a prevenção ao suicídio passa também pela identificação de situações que podem levar ao sofrimento intenso. Entre elas, segundo os especialistas, está o jogo problemático, cujas consequências podem ultrapassar — e muito — a questão financeira.
Fonte: Agência Brasil






