Apostas em bets avançam entre jovens e aumentam preocupação com dependência e endividamento

#Brasil | O crescimento das apostas esportivas e de outros jogos online, as chamadas bets, tem ampliado a preocupação de especialistas com os impactos financeiros e sociais entre jovens brasileiros. A facilidade de acessar as plataformas pelo celular e a exposição constante à publicidade são apontadas como fatores que podem favorecer o início e a manutenção do comportamento de aposta.

Segundo dados apresentados em reportagem da Agência Brasil, uma pesquisa realizada neste ano com 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio mostrou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Entre os estudantes do 3º ano do ensino médio entrevistados, quase metade afirmou já ter feito apostas.

Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), referentes a 2021 e citados na reportagem, indicam que uma parcela significativa das pessoas começa a ter contato com jogos online ainda na infância.

Celular facilita acesso às apostas

Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a possibilidade de apostar a qualquer hora, diretamente pelo celular, representa uma mudança importante em relação aos jogos de azar tradicionais.

Luiz Carlos, integrante do grupo Jogadores Anônimos, relatou que pessoas cada vez mais jovens têm procurado ajuda para abandonar o comportamento compulsivo relacionado às apostas. Segundo ele, já houve casos de adolescentes de 14 anos acompanhados por profissionais de saúde em busca de apoio.

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes podem apresentar maior vulnerabilidade aos estímulos relacionados à recompensa e ao risco, uma vez que o desenvolvimento das áreas cerebrais responsáveis pelo controle dos impulsos ainda está em andamento.

Perdas financeiras podem afetar estudos e rotina

Os impactos das apostas não se limitam ao dinheiro perdido. A reportagem também reúne relatos de pessoas que enfrentaram endividamento e mudanças significativas na rotina após desenvolverem comportamento compulsivo.

Um dos entrevistados, Gustavo Pereira, de 24 anos, contou que começou a apostar aos 18 anos e afirma ter perdido cerca de R$ 500 mil ao longo de seis anos.

Atualmente, ele afirma estar há aproximadamente dois meses sem apostar e tenta reconstruir a vida trabalhando com a venda de café nas ruas de Lages, em Santa Catarina.

Outro levantamento citado pela Agência Brasil, realizado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), aponta que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024. Segundo o estudo, quase metade desse grupo teria enfrentado algum tipo de endividamento.

O diretor do IBICT, Tiago Braga, ressalta que a aposta não deve ser tratada como investimento e que os gastos podem comprometer recursos destinados a necessidades do cotidiano.

Impactos na educação

Os gastos com apostas também aparecem relacionados às decisões educacionais.

Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) citada pela reportagem aponta que 34% dos entrevistados disseram que precisariam reduzir os gastos com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.

Entre estudantes que já estavam no ensino superior, 14% afirmaram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso em razão de gastos com bets.

O levantamento também identificou que 34% dos participantes disseram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizagem por causa das apostas. Outros 33% relataram ter deixado de investir em academia ou atividades físicas.

A ABMES ressalta, porém, que a pesquisa não avaliou indicadores de desempenho acadêmico nem de saúde mental e que os resultados não devem ser generalizados para todos os jovens.

Publicidade e influência nas redes sociais

Outro ponto de preocupação é a forma como as apostas são divulgadas na internet. Segundo informações apresentadas pelo IBICT, plataformas como YouTube, TikTok, Facebook e outras redes sociais foram utilizadas para alcançar públicos jovens.

A psicóloga Mariana Kehl chama atenção especialmente para a atuação de influenciadores. Segundo ela, quando a publicidade é apresentada por uma pessoa que o jovem acompanha regularmente, a mensagem pode ser percebida de maneira diferente de uma propaganda tradicional.

A facilidade de acesso, associada à publicidade e à possibilidade de apostar rapidamente, é apontada pelos especialistas como um dos fatores que exigem maior atenção de famílias, escolas, autoridades e empresas do setor.

ECA Digital estabelece novas regras

A reportagem também destaca o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), sancionado em 2025 e que entrou em vigor em março de 2026.

Entre as medidas estão mecanismos mais rigorosos para verificar a idade dos usuários e a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Menores de 18 anos não podem realizar apostas online. A legislação também estabelece medidas relacionadas à proteção de crianças e adolescentes diante de conteúdos e práticas consideradas inadequadas para essa faixa etária.

Especialistas citados pela Agência Brasil destacam que a proteção não depende apenas das plataformas. Famílias, escolas, poder público e empresas também possuem responsabilidades na prevenção e na orientação sobre os riscos do ambiente digital.

Busca por ajuda

Para pessoas que percebem perda de controle sobre as apostas, especialistas recomendam procurar ajuda profissional e apoio de pessoas de confiança.

Entre os sinais que merecem atenção estão o aumento frequente dos valores apostados, tentativas repetidas de recuperar perdas, comprometimento do dinheiro destinado a despesas básicas, problemas familiares ou profissionais e dificuldade para interromper as apostas.

A reportagem da Agência Brasil também cita o Jogadores Anônimos, grupo de apoio que reúne pessoas que buscam interromper o comportamento compulsivo relacionado ao jogo.

A orientação é buscar ajuda antes que as perdas financeiras, familiares ou sociais se agravem.

Fonte: Agência Brasil