Projeto-piloto leva diagnóstico e tratamento da doença de Chagas para perto dos pacientes no Sertão de Pernambuco

#Brasil | Um projeto inédito no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, está transformando a forma de diagnosticar e tratar a doença de Chagas, uma das enfermidades mais negligenciadas no Brasil. Batizada de “Quem tem Chagas, tem pressa”, a iniciativa busca descentralizar o atendimento, permitindo que pacientes recebam diagnóstico e tratamento na própria cidade, sem precisar enfrentar longas viagens até centros especializados, como a Casa de Chagas, no Recife. Atualmente, muitos pacientes percorrem até 800 quilômetros para atendimento. Com a nova estratégia, a expectativa é aumentar a adesão ao tratamento e agilizar o diagnóstico.

Testes rápidos revelam alta incidência

A primeira fase do projeto envolveu ações educativas com profissionais de saúde, estudantes e moradores de Triunfo e Serra Talhada. Na segunda etapa, cerca de 1 mil pessoas foram submetidas a testes rápidos — que fornecem o resultado em poucos minutos. Os dados chamaram a atenção: 9% testaram positivo, quase o dobro da média nacional, que varia entre 2% e 5%.

Apesar da agilidade, os casos positivos ainda passarão pela sorologia convencional para confirmação, procedimento que hoje pode levar até 45 dias.

Tratamento mais próximo de casa

Em setembro, começa a etapa de tratamento para os pacientes confirmados. O médico Wilson Oliveira, responsável pelo projeto, destaca que 70% dos infectados não desenvolvem formas graves da doença e poderiam ser acompanhados com segurança na atenção primária.

“Poder tratar na cidade onde a pessoa mora evita abandono do tratamento e traz mais qualidade de vida. É uma mudança de paradigma no cuidado com a doença de Chagas”, afirma Oliveira.

Doença silenciosa e negligenciada

Transmitida pelo barbeiro infectado pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a doença de Chagas pode ser adquirida também por via oral, transfusões de sangue ou de mãe para filho durante a gestação. Na maioria dos casos, a infecção permanece assintomática por anos, até causar graves complicações cardíacas e digestivas — responsáveis por cerca de 4,5 mil mortes anuais no Brasil.

O agricultor Roberto Barbosa dos Santos, de Triunfo, é exemplo do diagnóstico tardio. Ele só descobriu a doença em 2006 e, anos depois, passou a conviver com insuficiência cardíaca e marcapasso. Hoje, atua como presidente da filial local da Associação dos Pacientes Portadores de Doença de Chagas e participa do projeto para ajudar a mudar essa realidade.

Potencial de expansão

A iniciativa é desenvolvida com apoio da Novartis Brasil, que pretende replicar o modelo em outras áreas endêmicas. A diretora de Saúde Global da empresa, Michelle Ehlke, afirma que o objetivo é fortalecer a atenção primária e reduzir desigualdades no acesso ao diagnóstico e tratamento.

“O que está sendo feito no Sertão do Pajeú pode se tornar referência nacional, unindo prevenção, equidade e sustentabilidade no cuidado”, destaca.

Se validado, o protocolo poderá inspirar novas políticas públicas e mudar a história de milhares de brasileiros que ainda enfrentam a doença de Chagas em silêncio.

Fonte: Agência Brasil